
“O teatro de Lagarce é a palavra colocada em ação, em fusão; e ela é inextinguível”, nos diz Philippe Minyana, que o compara a escritora Nathalie Sarraute: “ela nos mostra tudo o que está entre as palavras, Lagarce nos diz”.
Um filho retorna para sua família para lhes informar da sua morte próxima. É o reencontro com o circulo familiar onde se diz o amor que colocamos através das eternas disputas. Desta visita, que queria definitiva, o filho partirá sem ter dito nada.
O teatro completo de Jean-Luc Lagarce nos permite traçar paralelos entre suas peças e o autor. Os textos são freqüentemente curtos. As palavras contam e se sobrecarregam de uma abundância de parênteses, de pontos de suspensão, de digressões, de paradas bruscas, de ausências, de silêncios. Como uma impossibilidade real de formular.
Em muitas peças não acontece aparentemente nada e, no entanto, o sentimento de perda é cada vez mais presente. Textos como um círculo, sem início nem fim.
E sempre esta distancia. Os personagens se perguntam se é a vez deles tomarem a palavra. Os risos explodem de repente como sem sentido. Uma viagem ao coração do absurdo. Sobre Apenas o fim do mundo, por Joël Jouanneau, que dirigiu o texto na França: “O grito existencial não se deixa facilmente tocar pela escrita. Assim, quando ele descobre a sua morte próxima, o inimigo dentro de si, o jovem, que também é o autor Jean-Luc Lagarce, encontra refugio na escrita. Face à pequena tragédia que é toda a existência, ele tenta, então, traduzir ao máximo o seu grito. Pela língua. E isto vai produzir meses depois, Apenas o fim do mundo, considerada por mim a sua mais bela peça, na qual ele imagina/se imagina um jovem na hora de sua morte, que pretende reencontrar sua família, perdida de vista há muito tempo, para anunciar a difícil novidade. Ele escolhe um domingo para faze-lo, mas voltará na mesma noite sem ter dito nada. Ao menos ele nos dá a entender, o jovem, que o silencio e a única resposta à tragédia.”
Neste texto o mergulho no mais íntimo do ser humano é estonteante. A ironia dramática chega ao seu ápice, já que o leitor sabe da sua doença, ignorada pelos outros membros da família. Todas as palavras tomam um sentido terrível, com esta revelação que não consegue ser dita. O trajeto deste homem para compreender a morte, nos oferece uma vontade de vida, como um derradeiro presente.
Apenas o fim do mundo foi escrito por um homem que se sabia condenado. Provavelmente só quem está perto da morte pode ter uma tal preocupação com a justeza das palavras. Em Lagarce, não se trata de preciosismo, esta precisão é a sua escrita, exigente, rigorosa, não naturalista. Esta exigência formal ultrapassa a história da família e lhe dá um lado universal, como todas as grandes obras literárias.
O teatro de Jean-Luc Lagarce é um teatro íntimo, nostálgico, humanista, mas com algum cinismo, onde as palavras contam a história, mas estão recheadas de suspensões, de silêncios, de ausências, de perdas. Pouco representado enquanto vivo Jean-Luc Lagarce é agora um nome fundamental da dramaturgia contemporânea pela precisão da escrita, a sensibilidade e a justeza da narrativa.
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